A Displicente Crítica do Sr. SCIMED ao nosso Artigo no Observador (Parte 1/2)

Partilhe com os seus amigos

Apesar de não frequentar a página de Facebook Scimed – Ciência Baseada na Evidência, chegou-me recentemente a informação de que esta entidade pseudo-científica teria elaborado uma espécie de crítica [1] ao artigo que escrevi em co-autoria com o Tiago Mendes no Observador [2] que aborda o tema da exequibilidade da transmissão por assintomáticos.

Vou pular por cima dos primeiros parágrafos porque nada existe, além dos Ad Hominems e Homens-de-Palha mal amanhados, tão característicos do Modus Operandi desta Página Ideológica encapotada de Ciência, cuja postura caricatural do seu promotor aspirante a cientista, nada me suscita, além do humor que me proporciona.

Mas o Sr. SCIMED apresenta algumas referências, e essas interessa-me analisar.

Iniciando pelo estudo luxemburguês de Fevereiro de 2021: [3]

Este estudo utiliza um modelo informático “agent-based” criado pelos autores e inspirado no Covasim, que simula a transmissão de COVID-19 – o chamado SEIR (Susceptible, Exposed, Infectious, Recovered).
Como referido no nosso artigo do Observador, os modelos informáticos são susceptíveis de grandes erros, porque dependem inteiramente de hipóteses especulativas.

Como referido no próprio site do Covasim:
“Note: Models are only as good as the values of the parameters put into them.” [4]
Trata-se de uma limitação inultrapassável no referido estudo.

Outro dos grandes geradores de vieses neste estudo é o facto de se tratar de um estudo retrospectivo, que depende muito da memória de cada participante, para definir quais foram os contactos sociais que teve. É o chamado “Viés de Memória”.

Como garantir quem foram os agentes de transmissão?

Além disso, o “Mass Screening” foi realizado com o RT-PCR, e sabe-se que, através da estatística de testes de despiste, quando a Prevalência é muito baixa, a Taxa de Falsos Positivos é enorme.

O Limite de Prevalência para a COVID-19 é de 9,3%, [5] abaixo do qual, a Taxa de Falsos Positivos (Valor Preditivo Negativo) aumenta de forma exponencial.

É exactamente o que se passa neste caso. Foram realizados 566.320 testes dos quais resultaram 1.099 positivos, o que dá uma Prevalência de 0,19%. Ora, com uma Especificidade de 97% anunciada pelo INSA [6] (eu considero que se trata de um número muito generoso), isso perfaz uma Taxa de Falsos Positivos de 94.3%, o que por si só, inviabiliza todo o estudo.

Portanto, outra limitação inultrapassável.

Por último, os resultados (completamente adulterados pelas lacunas referidas) ainda assim indicam que os assintomáticos geraram uma Taxa de “Ataque Secundário” (frequência de novos casos de uma doença entre contactos com os casos primários conhecidos) menor que os sintomáticos.

Ou seja, trata-se de um estudo que apresenta problemas metodológicos que o impedem de medir o que pretendia medir (validade interna), e como tal, não serve para o efeito.

(A questão dos testes PCR é referida ao de leve na análise deste estudo, mas como foi um dos temas que o Sr. SCIMED quis abordar, irá ser escalpelizada de forma mais aprofundada na 2ª Parte deste Post).

Revisão sistemática de Março de 2021: [7]

Esta revisão sistemática não é acerca da TRANSMISSÃO por assintomáticos, mas sim da proporção de assintomáticos entre os que testam positivo para o SARS-CoV-2, concluindo-se que 25% dos casos são assintomáticos.

Trata-se de um exemplo flagrante da incapacidade manifestamente confrangedora do Sr. SCIMED em ler o abstract ou até mesmo o título (já nem se lhe pede o artigo), quanto mais uma análise metodológica e interpretativa.


Revisão sistemática de Setembro de 2020: [8]

Nesta revisão passa-se o mesmo que na analisada anteriormente, ou seja, trata da Taxa de Positivos Assintomáticos e não da transmissibilidade dos assintomáticos.

O Sr. SCIMED ainda refere, num ar triunfante, que “os assintomáticos (…) são mais jovens e ativos.” Pudera! Eu perguntaria ao Sr. SCIMED porquê. Será porque os jovens são mais saudáveis e só são considerados “casos” por causa da tal questão do teste PCR? (Questão do teste PCR detalhada na 2ª Parte).

O estudo conclui que “os pacientes assintomáticos PODERÃO ser contagiosos”. Poderão! A fraseologia remete para o reino da especulação e do imaginário, tão ao gosto do Sr. SCIMED. Outra das palavras chave é “Pacientes”. Considerar pessoas saudáveis como “pacientes” é mais uma das originais inovações da putativa pandemia actual.

Concluir que os assintomáticos PODERÃO ser contagiosos apenas porque foram detectados como “casos” assintomáticos é um salto de fé fascinante.


Revisão sistemática de Janeiro de 2021: [12]

Verifica-se a mesma questão que nas revisões anteriores. Trata-se de um estudo de prevalência de SARS-CoV-2, este com estratificação por idade e género.
Descobriu-se uma Taxa de Positivos Assintomáticos de 48,2% e nestes, 55,5% são mulheres e 49,6% crianças.

O que é que o Sr. SCIMED concluiu? Pasme-se: que “a TRANSMISSÃO assintomática [anda] na ordem dos 50%, sendo que as mulheres e crianças tendem a ser a maior parte destes casos.”

Confundir “Taxa de Positivos Assintomáticos” com “Transmissão Assintomática” é obra! Uma ‘Chef-d’Oeuvre’ retirada da infindável panóplia de disparates do Sr. SCIMED.

Em parte alguma deste estudo se verificou/estudou as eventuais transmissões de assintomáticos. Apenas se estuda a taxa de assintomáticos no universo de todos os casos positivos encontrados e depois especula-se que por cerca de metade dos “casos” pertencerem a indivíduos sem sintomatologia, que então estes PODERÃO ser agentes de transmissão!

Aparentemente, o Sr. SCIMED pertence àquela fatia da população portuguesa que confunde Opinião/Hipótese com evidências científicas. É assim que doravante se deve ler a palavra “Evidência” na sua página.
Quanto muito, o que se pode concluir, é precisamente que a testagem de despiste da COVID-19 gera um número enorme de Falsos Positivos (mas falaremos disso na 2ª parte).

Refere o Sr. SCIMED que deixamos de fora estas descobertas científicas no nosso artigo do Observador. A julgar pelo teor das revisões sistemáticas supracitadas, mais valia que também ele as tivesse deixado de fora. Ter-lhe-ia poupado o embaraço de expor de forma tão evidente a sua penosa incapacidade de ler artigos científicos.


Revisão sistemática de Abril de 2021: [9]

Este estudo tenta identificar as fontes de transmissão da COVID-19. A putativa transmissão entre assintomáticos é tratada de forma superficial a meio de todas as outras formas (animais para humanos, através de fômites, etc.)

No que diz respeito à possível transmissão de assintomáticos, apenas foram consultados dois estudos:

O primeiro, um estudo chinês de Fevereiro de 2020, é um estudo de caso de uma pessoa assintomática (com um teste positivo) que supostamente esteve em contacto com cinco familiares que testaram positivo e desenvolveram sintomas. A pessoa assintomática, eventual agente de transmissão, testou negativo no seu primeiro teste e positivo no segundo. Os autores alegam que o primeiro teste poderá ter sido um “Falso Negativo”, mas que evidências apresentam? Nenhuma. Como podem garantir que o segundo teste não se tratou de um Falso Positivo? Não garantem. Na verdade, a estatística de testes diz-nos que a 2ª hipótese é muito mais provável (mas falaremos disso na segunda parte). [10]

Facilmente se consegue perceber a fragilidade deste estudo e dos vieses implicados. São muito frágeis as evidências para se conseguir provar que foi a pessoa assintomática a responsável pelo contágio dos seus familiares. Quantos contactos sociais teve a família em questão? E que outras formas de transmissão? De que forma estas variáveis foram controladas?

Não passam novamente de hipóteses especulativas.

No segundo estudo, de Janeiro de 2021, concluiu-se que 24% das infecções provêm de indivíduos assintomáticos. Mas como é que chegou a estas conclusões? Através de modelos de análise estatísticos, especulativos, assumindo premissas como verossímeis. [11]

Utilizaram um modelo estatístico simplista para estudar um fenómeno complexo (infecciosidade de SARS-CoV-2 ao longo do tempo), testando as suas hipóteses.

Mais lixo estatístico sem qualquer relação com o mundo real.

Para não ser demasiado exaustivo, este Post irá ter continuidade amanhã, onde irei abordar a prometida questão dos PCR, além de outros argumentos presentes na crítica do Sr. SCIMED.

(CONTINUA)

Fontes:

[1] https://bit.ly/3fC2qSb
[2] https://bit.ly/3vhQ6xm
[3] https://bit.ly/3wrBnzT
[4] https://app.covasim.org/
[5] https://bit.ly/3lzN4QP
[6] https://bit.ly/3niPnHf
[7] https://bit.ly/2QITD8M
[8] https://bit.ly/3wpBls9
[9] https://bit.ly/2QG08ZR
[10] https://bit.ly/2RxHPGW
[11] https://bit.ly/3yx1nf1
[12] https://bit.ly/3ukzAeJ


Partilhe com os seus amigos

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.